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Contos Que Cantam Sobre Pousospássaros / Claudia Schapira

CONTOS QUE CANTAM SOBRE POUSOSPÁSSAROS

Claudia Schapira

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do

Projeto Conexões Teatro Jovem

e fez parte do seu portfólio no ano de 2011.

Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser

negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

 

 

Claudia Schapira: claudia_schapira@yahoo.com.br

ANTÍGONA RECORTADA

ANTÍGONA RECORTADA

Esse texto foi originalmente escrito pela autora para a edição 2011 do Projeto Conexões com o título: CONTOS QUE CANTAM SOBRE POUSOSPÁSSAROS.

A autora retrabalhou o texto e encenou com sua companhia "Núcleo Bartolomeu de Depoimentos" com o título ANTÍGONA RECORTADA.

A versão aqui publicada é a mais recente atualizada pela autora.

Lenda Urbana

Este texto é uma lenda urbana. Uma dramaturgia ficcional. as cenas são sequenciais mas fragmentadas embora exista uma linha cronológica sugerida.

... Sonho com voos pássaros...Sonho com voos que alcem voo... E pousempássaros em livres terrasparagens de todos...

PRÓLOGO:

PRÓLOGO:

“....A terra... é o corpo de nosso criador. Nós também somos um punhado de terra... se não tiver terra pra alguns pisarem onde é que eles vão ficar, que não tem outro pouso nem outro lugar de sustento”..

Antes de antes

De antes de antes

De antes

De antes de antes

Antes antes

De antes

Diante de quando

a palavra dita

ditava

Decretava

e não era proscrita

A vida era um bem

A morte destino

E os ritos de passagem

o caminho da consagração

já não é terra

ja nao é terra

já nao é terra

a terra que não enterra

já nao é terra

a terra que não enterra

em suas entranhas seus mortos

já não é pouso

o canto que não acalanta

em seus recantos

os corpos

já não é colo

o braço que não enlaça

mas ceifadordilacera

o outro

1 - Apresentação

1 - Apresentação

Ela: (s)

A laje da minha casa

sempre foi o lugar de sonhar....

hoje estou sonhando

aqui enquanto todos ainda dormem.

Eu preciso não dormir.

preciso me preparar, preciso...

Voz de um: Shhhhh! Pára com esse barulho...

Está falando dos disparos mudos esse ai,

não comigo.

Que esta noite teve batida no bairro,

dia de baixa no quadro

de meninos que desaparecem para nunca mais...

É por isso que ando de um lado a outro da laje,

esse meu quarto de sonhar...

que no quarto-casa falta um dos meus miúdos

e sinto um apertamento,

que é na intuição do peito,

que notícia ruim sempre chega,

eu sei,

só me resta esperar!

Preciso não dormir

e começar a tecer outro fio de história

reavivar a memória

e começar, contadora a contar.

Da laje parece que meu olho

ganha dimensão de águia e vejo 360o.

Preciso mesmo

é enxergar por dentro

pra ver se tiro de lá o alento

pro que daqui em mais vou cantar:

Ela: (s)

Em alguma periferia de mundo

O tráfico rolando solto

Meninas acordam!

aquelas elas,

tudo parecida comigo quase-um-mesmo,

me seguem!

Caminharemos juntas,

pode ser que em direção à morte

tudo uma questão de sorte

pra dar voz à idéia recém-brotada

que ninguém aqui mais suporta

a vida que pouco importa

e dei de ficar com vontade

de acabar com esse pouco caso

pelos nossos filhotes que nem são...

Mas que têm o mesmo sangue

a mesma querela

então a gente pega amor

pelos nossos filhos-irmãos

e que já falei

ando com uma idéia nova inventada que foi-quase -agora

pousada no galho do meu pensamento!

Vou vestindo minha melhor roupa

que desse jeito-estilo tem uma só

já que se aproxima o momento

que é quase de madruga hora propicia e só

e como me vem um medramento,

uma emoção pelo intento,

chegam as lembranças de recapitulamento

quando pequena

na flor da recém-idade

de criança nem nada crescida

minha mãe me entregou a responsabilidade

dos demais, sem dó:

voz de um: (mãe)

você toma conta dos rebentos

cuida da casa

prepara o precário alimento

enquanto eu batalho o sustento.

E como se fosse mandamento

um pouco por falta de outro argumento

assim se fez a vida dia a dia

minha e as de todas quase as demais...

É assim o procedimento:

os pequenos no quintal

brincando ao relento

que a comunidade ajuda nesse

tomar-conta-lida-de-agrupamento

- pode ir, que eu olho tudo esses filhos do vento –

grita a vizinhada, aninhada um do lado do outro,

um galho à frente, outro atrás!

Então levo os do meio na escola

enquanto ainda consigo e querem ir pra lá

e na chegança em casa

roupa pó comida e sonho

tudo no mesmo cômodo.

Foi nesse movimento vivido

que fui crescendo

ficando ondulada

– já dá passo de mulher –

comenta a molecada!

Enquanto rasgo o chão apressada

pra não esquecer de nenhum atarefamento

- dia a dia esse que comento

que é assim até de noite

desde que amanhece a manhã -

Nesse todo dia labuta

tudo tem o seu momento,

até o instante refinamento

da meninada dando flor.

É quando a gente troca

de mostrar roupa e calçado

não chinelo mais,

nem tênis,

mas salto princesa e ousado

que é pra a turma notar

que findou a época de ninhada

que agora é tudo já moça

e como a mãe não tá,

a responsabilidade é toda nossa,

que isso dá status na comunidade geral!

E nesse instante feriado-inventado

enquanto a passarada tão tudo voando

nós saímos do ninho e vamos todas cheia de prosa

prosear com os gaviões do arraial.

Chegamos salto agulha agulhando o linguajar

o corpete dando forma e malpreenchido,

que o seio ainda nem brotou direito,

mas a gente empina o peito e se faz notar...

E logo vamos falando que cadê o cara bicudo,

para vir dar conta dos acordo,

que os meninos tem que ter pelo menos

um pouco de estudo

e que o trabalho tem que ter horário certo

pra começar e acabar!

Nesse momento os passarinhos

fica tudo de bico caludo,

enfileirados,

feito soldados de treinamento duro,

esperando o que vai se passar...

Verdade verdadeira é que é demonstração

da jovem ninhada,

que é pro chefe-gavião escolher a passarinha sorteada,

a que de nós será o troféu e consagrada

escolhida e protegida, ela e toda a família.

A gente fica perfilada,

põe a mão na cintura e desfila,

música no bico, pra causar boa impressão.

Começa a dança da passarada,

dança de gente graúda,

rebolante e preparada,

pra impressionar a gaviãozada:

(funk)

eu sonho, eu sonho

que eu posso voar

e só pouso na terra

quando o mau tempo acabar

eu nasci passarinho

mas não posso voar

desde que abri os olhos

a gaiola é o meu lar

aqui há uma lei própria

difícil se safar

os abutres lideram

todos tem que acatar

eu sonho, eu sonho

que eu posso voar

e só pouso na terra

quando o mau tempo acabar

eu vivo no desejo

de poder viajar

sair desta gaiola

e pousar pra lá do mar

eu voo, eu voo

ninguém vai me pegar

e só pouso na terra

quando o mau tempo acabar

2 – do prosseguimento

2 – do prosseguimento

fala do Tirésias mixada a outros sons de virada:

cego sou ai,ai, ai de mim!

Entoando sons enxergo além...

Mas pior cego é aquele que não quer ver...

Ela: (s)

Os pássaros grandes tudo em conferência

decidindo os rumos da audiência:

quem será a bola da vez e pra quem...

e em meio à argumentagem,

todos os pássaros de asas infladas,

uma voz se destaca e pronuncia

voz de um (falcão miúdo):

- Pai, quero aquela de olhar altivo ;

de tão bonita quase insolente! -

Foi a voz da sorte sobrevoando

e escolhendo a entrevistada

que tá tudo planejado, coisa certa e arranjada

pra usufruir do cargo de menina companhia de falcão;

E como fui eu a contemplada,

É assim que ponho de assalto inesperado

a prática do plano de ação

o pombo-falcão jovem,

peito inflado de vaidade na mão,

se aproxima e num rompante

entre um beijo roubado e a respiração

coloco o informe,

os de perto tudo de cara no chão

pela ousadia que ousei dar voz e expressão:

– que quero fazer jus à vida, coloco!

Dando pouso a tudo quanto é nossos irmãos-quase-filhos sem enterrar

como rezam os mandamentos,

esquecidos nos buracos

escondidos nos becos

e que esse é o meu primeiro pedido

à queima roupa e sem aviso,

meu primeiro capricho de recém-concubina!

...

O silêncio tomou conta da cena corriqueira

todo mundo constrangido,

amendrontado

pela menina

eu

ter aberto

a ferida sangrenta da velada guerra!

O gavião pai ecoou fazendo valer seu pedaço:

Gavião:

– a passarinha é atrevida, ousa assunto vespeiro...

vou levar na esportiva, como fosse coisa de nora novata não sabida de como as coisas são....

silêncio de novo...

De repente risos roucos,

os do bando querendo descontrair um pouco

e apaziguar a situação.

O filho pombo-falcão ousa outro beijo e eu,

depois de ter ardorosamente retribuído

respondi que continuei ousando,

que não era descuido,

que era pedido de há muito ensaiado e decidido

e que se não fosse atendido,

eu daria um jeito, que isso já estava resolvido.

Ouvi apenas, voz de trovão, o ofendido:

leva pra fora a meninada!!! Todas e aquela desatinada!!!

E você, vai ter que provar que é meu filho

e dar juízo a essa desaforada!

E assim por força de estratégia pensada,

calei cabisbaixa,

parecendo resignada,

mas no fundo não!

E me entreguei ao enamoramento

com o pombinho-falcão entusiasmado

que me levou de ninho em ninho,

pra tudo quanto é lado

me mostrando como troféu

e eu pensando nas regalias

fiquei dócil e mostrei serventia

plano à vista, que eu daria um jeito de ajeitar a causa

e não desistir da ambição.

Voz de um (irmã):

– Tira isso da cabeça!

griteia desvairada a irmã no canto da sala...

– por aqui as coisas são dessa natureza e se não alardear até que tá bom!

Não dei conversa pra ancestral conformada

e nessa noite não comi quase nada

deitei foi cedo pra acalmar a alma zangada

e alimentar a imaginação....

3 – O plano

3 – O plano

voz mixada Tirésias:

do fogo destas feridas não escaparão....

(canto de oxum)

Naquele outro dia acordei cedo pra mexer em água

que limpa que refresca e acalma

chamei todas as outras pra compartilhar o afazer

e roupa vai roupa vem

dar voz ao que eu queria fazer!

Vai ser cena nunca vista!

Coisa magnífica, plano de artista!

Que como se fosse carnaval

vamos é criar um acontecimento,

uma utopia futura fui anunciando

uma ala alegoria,

e se instalar dando corpo e vida,

inventando cargo e função,

só a jovialidade no comando,

as meninas coordenando

os bebês habitando

e quando começar a tal instalação-desfile

– e eu nem contei ainda a melhor atração –

Vai causar estardalhaço

polícia, televisão chegando

pra noticiar a inesperada visão

de mundo recém-criado

onde as coisas vão ser do jeito que deveriam

sem ficção...

4 – Debandada

4 – Debandada

Como falei, cismei foi de tirar em comitiva

tudo quanto é criança, morta e viva,

e fazer um acampamento em outro espaço e região.

Então aproveitei a data sossegada,

que o líder gavião

tinha posto o pé na estrada

para cuidar de negócios em outra estação.

Começamos a debandada

tudo em partes separadas,

demos por iniciada a encenação.

A hora é a madrugada

as coisas já tudo armada

é a laje nobre

o lugar escolhido

lá pro alto da viela

palacete antigo de bandido foragido

as meninas com todas as mudas

os bebês e as crianças

começamos a primeira parte do intento

instalando lá o alojamento.

Deixamos os de cinco anos

cuidando dos que nem ano ainda,

alardeando que estavam no comando

já grandes, capitaneando!

e gostando do cargo os pequenos passarudos

ficaram guardando,

uns aos outros

enquanto brincam de brincar um pouco

que a gente já volta e traz refresco pro almoço...

5 – Segunda parte da debandada

5 – Segunda parte da debandada

A segunda parte ainda noite e medrosa

demoraria mais, que é mais profunda e arriscada

que tem que ser forte e não sucumbir à alma despedaçada

que era procurar em valas, cantos, buracos,

corpos recém-jogados,

agorinha mais,

ainda há pouco

e carregar os miúdos pro novo lar

pra dar o decente e merecido rumo

que se até animal tem direito a repousar sob a terra

porque os nossos irmãos

que não são bicho mas gente

não teriam essa igualdade que é de todos independente

de qualquer fato ou moral?...

E parecia que os anjos alados estavam tudo do nosso lado

que fomos encontrando os enjeitados

um a um,

em silêncio respeitoso e ensaiado!

Eu procurava e localizava as indigentes valas

enquanto as demais

pegavam os corpos,

embrulhavam

e jogavam na carroça previamente preparada.

Assim finalizando a empreitada

fomos já reverenciando a ninhada

no trajeto até o local paraíso,

escolhido para ser a digna morada.

Lá chegando, as covas tudo cavada

fomos depositando um a um,

cobrindo com terra e palavras consagradas.

Cantamos reverenciando e reverenciadores

um canto de adeus pra passarada.

As crianças tudo arrumada, de vela colorida na mão,

apontando a luz da nova e definitiva estrada.

Canto de todos:

silenciosos eles voltam pro jardim

os lindos passarinhos que tão cedo fugiram do ninho

retornam ao céu novamente

lá vai o pardal-querubim,

lá se vai o tico-tico-serafim

entregues a terra, enfim

em valas coloridas de curumins

já não é terra

a terra que não enterra

em suas entranhas seus mortos

já não é pouso

o canto que não acalanta

em seus recantos

os corpos

já não é colo

o braço que não enlaça

mas ceifadordilacera

o outro

6 – O zumzum zum

6 – O zumzum zum

Voz mixada Tirésias:

Céus, não vem que o juízo é o maior dos bens?

Extra! Extra!

um dia essa historia toda vai ecoar

de galho em galho do mundo vai ser ouvir falar

que num canto de qualquer lugar

numa esquina de mundo singular

viu-se uma coisa pra lá de original

um ninho raro de pássaros diversos

sendo construído à revelia das leis vigentes

meninas-mulheres dançavam enquanto cuidavam

de um monte de passarinhos

recém-saídos do ninho

iam construindo um cemitério todo colorido,

que parecia uma praça de brincar

e cercaram o lugar com lençóis desenhados e não deixavam ninguém com mais de 18 anos entrar.

Esse lugar queria mudar o rumo das coisas

que não se sabe por que e em que momento da historia

começou por causa das dificuldades com o sustento

um negócio muito perigoso

que era trabalhar em idade que ainda nem é pra isso

em assunto escuso,

e que imprimia às leis naturais um certo abuso

a passarada em vez de crescer, brincar e estudar

aprendeu a carregar revólver

e a ter responsabilidade como se fosse homem crescido

e por puro desatino e dureza do destino

todo mundo concordava com essa lógica enviesada

que criança em vez de jogar pelada

tivesse função e trabalhasse em causa bandidagem

sujeito a uma morte-repente

sem aviso e de emboscada

e as famílias por puro desespero

aceitavam um pouco fazendo vista grossa

por causa do dinheiro

que se algum dos meninos sumisse

nem o corpo seria entregue pra dar enterro derradeiro

pois seria uma prova contra os grandes

o corpo morto dos pequenos.

Foi diante desta atividade trocada

que as passarinhas

decidiram inventar uma outra história e ousada

onde ser criança era possível

onde morrer teria homenagem e justa morada

onde brincar de imaginar

seria a única função de criança

e onde pudesse sem parecer ingênuo

falar de alegria, de fé e de esperança

utopia futura foi chamada

a laje inventada pela meninada

e virou uma lenda pra lá dos muros

e pra alardear pelo mundo inteiro

ganhou asas e pôs os pés na estrada!

7 - Das conseqüências

7 - Das conseqüências

gavião pai:

aquela passarinha empolada cutucou em ninho de gavião furioso...não vou dar ouvido palavrorio improprio....

a lei por essas bandas vale de há muito: (do bando)

que há muito que na área vale essa lei:

menino que morre por caguetagem

ou por vacilo no exercício,

tem o destino-sumiço, que não dá pra fazer alarde, pois é sigiloso o serviço!!!

Não admito essas idéias de enfrentamento do esquema...

filho de gavião:

não há cidade que seja de um só pai...

e se quer saber, eu achei até que nobre a atitude e bonita...

não é que caiu de vez nas minhas graças a cotovia altiva

não se curva, sabe o que quer,

diferente das outras que só pensam em baile e sapato;

O senhor sempre valorizou pássaro que arrisca voo alto!!!

voz de gavião ofendido:

Não se trata de atitude ousada, mas de desacato

eu não posso fazer vista grossa e pousar de fraco!

Aquela passarinha miúda

vai saber logo já

agorinha mais

quem é que manda nestes galhos

que é pra dar exemplo

que aqui a área é mesmo toda nossa

senão daqui a pouco qualquer passarinho mal saído da casca

acha que pode dar voz e comando

em tudo quanto é destino!

Vamos dar a lição merecida

a título de exemplo e de ensino!

8 – O lugar da utopia futura

8 – O lugar da utopia futura

policia televisão chegando

chegando televisão...

inflamando o impasse

Verdade seja dita

eles não iam deixar barato o desacato

mas como tínhamos em função do estardalhaço

ganhado um tempo

foi nesse momento que decidimos

começar a última parte do plano,

que era construir por cima das valas

um lugar com o jeito da forma-desejo

de cada criança enterrada,

que era para realizar

no último ponto da jornada

a vontade da criançada.

Cada túmulo de um jeito especial,

que a comunidade recém-inaugurada

ia virar parque temático de diversão,

de dar gosto à garotada,

e deixar boa recordação

pra quem lembrasse da saga da passarada.

Começamos a construção

entoando uma canção

que era pra dar motivação

e despistar o cansaço e a apreensão....

canto-construção:

rogamos para el santíssimo

madre mia de la caridad

ayudanos

amparanos en el nombre de Dios

Fiesta fiesta fiesta

A tua casa de dormir vou construir

Fiesta fiesta fiesta

Na hora do repouso

Você vai se divertir

Fiesta fiesta fiesta

Qual é o lugar onde você deseja ir

Fiesta fiesta fiesta

Voa passarinho agora você pode ir e vir...

Señora santa muerte muerte

Venga para ayudar te pedimos protección

Imploramos tu piedad...

9 – Do enfrentamento

9 – Do enfrentamento

E enquanto diante da laje aumentava a vigília

que era gente de tudo quanto é canto

vindo prestigiar a nossa inventiva

a gente construía os brinquedos de repousar

mas como eu era desconfiada

e confiava na intuição que me intuía

montávamos em revezamento-guarda

não fosse que viessem os bicudos nos atraiçoar!

E foi em meio à tamanha obra

que no calor da labuta

o gavião maior veio ter comigo

me flagrando só em instante descuidado de intimidade

gavião pai:

– Bravo passarinha!

Virou noticia em tudo quanto é veiculo da mídia;

tá de parabéns...

A comunidade tá em tudo quanto é primeira página

coisa boa pros negócios da região,não é não???

Eu sei muito bem o que você quer... e não tem nada a ver com esse lero-lero de justiçar os desvalidos

Você quer é ganhar prestígio,

usar a comunidade pra alavancar

a sua vida de miserabilidade

mas não vai ser à custa do meu oficio.... –

mas é bom não alimentares esperança

... noticia é feito brasa rasa.... logo passa...

ELA(S)

oh pátria assinalada por varões....

Ouso transgredir as tuas leis porque tu as transgredistes primeiro!!!

Pus ele pra correr

me valendo dos olhos pousados em nós

falei que era um dois eu gritar

e todo mundo ia ver

o manda-chuva ameaçando a pobre cotovia

Ele foi embora, sangue nos olhos

jurando que voltaria

e eu sabendo que assim seria...

Eu tava jurada de morte

eu bem sabia

mas a minha missão era a coisa primeira

quase uma redenção

e era o que me movia.

Já não é terra a terra que não enterra em suas entranhas seus corpos

Eu tava jurada de morte

Já não é terra ...

10 – Da construção do parque

10 – Da construção do parque

voz mixada voz de criança:

O pequeno beija-flor sempre quis jogar futebol

vai repousar com a bola de travesseiro

e a rede do gol de colchão....

o assum preto queria pilotar

um grande trem pra poder viajar

então colocamos uma mala gigante

com fotos do mundo inteiro,

pra que possa se divertir

imaginando cada país,

o nosso passarinho, no seu lar derradeiro

canário queria ser cantor

cantar e tocar pelo mundo afora

então construímos um espaço de tocador

deitamos ele entre partituras e uma viola!

Ela (s) –

Terminada a jornada,

sentamos em roda fim da tarde

Olhando o horizonte,

sensação de missão cumprida!

como se fosse um dia qualquer

num outro mundo possível

e daqui a pouco fosse chegar

o pai e a mãe de todos

pra pôr a gente pra dormir

desejando bons sonhos!!!

Era isso, uma vida tranquila...

Poder acordar e criançar

até adolecer,

mais tarde

um pouquinho só,

amadurecer

e assim tomar parte nas atividades da vida

Tudo na sua hora certa...

sem sobressalto nem alarde

coisa de vida comum e como deveria...

Mas que pra nos parecia capitulo de conto de fada...

– Olha lá pro céu, me deu de falar –

O pai se põe enquanto a mãe assume a guarda,

que não é o sol o nosso pai e a nossa mãe a lua misteriosa?

Ficou todo mundo me olhando,

desconfiados desses pensamentos recém-brotados...

mas erguendo os olhos e contemplando

acabaram foi é se aninhando em pensamento

naqueles pais ofertados pelo firmamento!

o mundo podia era acabar nesse instante de beleza e feriado....

E nem sei por que de repente me deu um calafrio,

um certo frio na espinha

que parecia tudo por demais tranquilo

quase mesmo um lugar de sonho sonhado

que meu coração foi ficando alarmado

sentindo que boa coisa não vem por ai!!!

Nesse instante premonição,

chegou o pombinho-falcão enamorado

dizendo que o povo lá em embaixo andava bem zangado...

Mas eu vim, mesmo assim,

pra cá ficar do seu lado!

Eu fui logo entendendo o recado.

Falei que podia ficar, disfarçando minha alma alarmada

mas tinha que mostrar serventia

Fazer o serviço igual à passarinhada

que aqui não tinha hierarquias.

Sentou na roda a contemplar o céu junto com todos

E me deu um remanso no coração,

um gosto pela sua recém-companhia,

que por segundos

me senti menina querida e protegida.

Pausa pequena

que era pra dar vazão ao pensamento

e decidir qual seria o próximo passo-procedimento....

11 – O outro lado

11 – O outro lado

voz de um (gavião pai )

ta na hora de voltar tudo

como nos antigamente...

mostrar quem é que comanda

canhão pesado é o nosso estilingue

vamos tomar as rédeas do pedaço

na força do fogo e do aço

12 – A partida derradeira

12 – A partida derradeira

Ela (s) (pra si)

sinto um tremor sob meus pés

eles vêm, eles vêm...

não posso cair sequer sucumbir

todos me espreitam

a hora é de agir!!!

(pausa/queda no tempo da laje)

eu andava novamente de um lado a outro da laje

Verdade verdadeira

que tínhamos

vislumbrado

tínhamos experimentado mesmo que numa fresta de tempo

fugir da sina de um destino funesto

verdade verdadeira que tínhamos esbarrado num lapso de entreato

e que agora, realidade cindida,

não dá mais pra retomar uma vida corda bamba

à beira

de constante abismo e mal vivida....

então proferi:

viagem!

não vamos levar nada

que tudo é o que somos!

nossa bagagem!!!

eles vêm, eles vêm!

eles vêm, eles vêm!

eles vêm, eles vêm!

eles vêm, eles vêm!!!

voz-estrondo

barulhos vindo lá longe

no caminho de vielas da estrada

eles vêm!!! Eles vêm!!!

um fogo-fogaréu

a iluminar

os nossos pés

ninguém se movia

comecei a dança de bater as asas

todo mundo imitava

Eles vêm, eles vêm!!!

Eu vou subir aos céus pra falar com Deus

Pra ele aqui mandar a paz na terra!

eu voo, eu voo

ninguém vai me pegar

e só pouso na terra

quando o mau tempo acabar!

eu voo, eu voo

ninguém vai me pegar

e só pouso na terra

quando o mau tempo acabar!

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